outubro 27, 2003

Entrevista com Arturo Pérez-Reverte

Arturo Pérez-Reverte, o romancista mais respeitado actualmente em Espanha, está em Lisboa para promover o seu último romance A Rainha do Sul , que Edições ASA lançou em Outubro. Tive oportunidade de estar com escritor e ele falou-me sobre a personagem principal deste livro, sobre a luta de uma mulher num mundo de homens, sobre marginalidade e códigos de conduta.

Como surgiu o Pérez-Reverte escritor, como passou de repórter a romancista?

Nunca pretendi ser um escritor, não era essa a minha intenção. Era repórter e era leitor, lia muito. Depois de passar 21 anos em países em guerra, fiz-me um monte de perguntas que não tinham resposta e descobri um dia que escrevendo ajudava-me a reflectir e a ordenar a minha vida, que tinha sido muito desordenada durante 21 anos. Escrevi um romance, senti-me bem. Gostei da experiência e escrevi outro. Senti-me bem outra vez. O terceiro, A Tábua de Flandres, foi um bestseller internacional e isso deu-me independência para viver da literatura. Mudou a minha vida. Eu nunca quis ser escritor.

Como começou o romance A Rainha do Sul?

Como repórter, tinha muitos amigos poucos recomendáveis: mercenários e traficantes. Um dos meus melhores amigos é um mercenário português que mora em Moçambique. Entre os meus amigos também há narcotraficantes. Falando com eles num restaurante no México, ocorreu-me esta ideia: contar a história de uma mulher que está no mundo do narcotráfico. É a história de uma mulher num mundo muito masculino, porque o narcotráfico é um meio muito viril, de homens. É então uma mulher de conflitos mais evidentes. Para mim isso era muito mais interessante. Comecei a falar com os meus amigos, a perguntar-lhes coisas e a investigar o assunto.

Quanto tempo demorou a concluir o romance?

Normalmente, um grande romance ocupa-me um ano e meio ou dois anos.

O que lhe custou mais, preparar o romance ou escrevê-lo?

As duas coisas são difíceis. Eu sou um escritor profissional, não sou um artista. Isto é um trabalho e eu conto histórias de forma profissional. Levo o trabalho muito a sério. A parte da documentação é muito importante, porque sem documentação não se pode escrever o romance. E, neste caso, tive que falar com muita gente, ir a muitos sítios: aos Estados Unidos, a África, a Marrocos, ao México, a Espanha. Foi trabalhoso, mas também foi muito divertido. A parte mais aborrecida foi a escrita. Para isso tens de trabalhar em casa todos os dias. Penso que difíceis são as duas, mas o mais divertido é o começo, a documentação. Não tens nenhuma responsabilidade, tudo é possível, tudo está por acontecer, tudo é novo, tudo interessa. É como um namoro. No início tudo é mais interessante do que após cinco ou dez anos.

Quando estava a preparar o romance, durante as viagens, a sua vida correu algum perigo?

Tudo correu bem porque estava entre amigos. Os narcotraficantes são pessoas muito duras, mas também têm os seus códigos. Eu estava bem protegido. Os que me levaram eram pessoas de confiança, conheciam-me bem e sabiam que eu era um romancista, não um investigador, um bufo ou um polícia. Sabiam que eu era um romancista conhecido. Tive a sorte de a mulher de um narcotraficante mexicano ser leitora dos meus livros e então deu uma festa na sua casa, apresentando-me a muita gente e ajudando-me imenso.

Custou-lhe muito pôr-se na pele de uma mulher?

Não me pus completamente na pele de uma mulher, mas tentei ver o mundo a partir desse ponto de vista. Falei com muitas mulheres, reflecti muito sobre a condição da mulher, porque corria o risco de que me acontecesse aquilo que acontece muitas vezes na literatura: quando um homem cria uma personagem feminina, acaba por ser um homem transvestido de mulher. Eu não queria que isso acontecesse, queria que fosse uma mulher de verdade. Tive que fazer um longo e paciente esforço e penso que o consegui. Muitas mulheres dizem-me “Eu sou Teresa Mendoza”. Quando há mulheres que dizem isso, significa que ao menos com algumas eu o consegui.

Pode dizer-se que Teresa Mendoza era como aquela mulher do narcotraficante, que era sua leitora?

Não, mas o curioso é que depois detiveram uma mulher que era chefe de uma rede de narcotráfico e chamaram-lhe Rainha do Pacífico já depois de sair o meu romance. Às vezes a realidade confirma a posteriori a ficção. Ela era jovem, bonita e dura como Tereza.

Que diferença existe entre as mulheres do narcotráfico, como a Teresa Mendoza, e os homens traficantes?

Há muitas diferenças, o mundo do narcotráfico é muito masculino. Eu conheci muitas mulheres neste meio, mas não estão no topo, ocupam lugares intermédios. O narco é um mundo muito machista e muito difícil para uma mulher. Por isso, para mim era muito interessante contar esta história de forma credível.

Como é que ela alcança o topo, de que armas se serve? Da força?

A força não. A mulher é superior ao homem, tem um mecanismo de crueldade e de sobrevivência muito mais desenvolvido que o homem. A mulher é uma sobrevivente num mundo de homens, tem que lutar com as regras estabelecidas por homens. Ela luta usando as regras dos homens, mas com a crueldade de mulher.

Ela sobe na escala social e passa a ser aceite nas revistas do coração, como a Hola. Pensa que algo semelhante é possível?

Absolutamente, vivemos num mundo tão estúpido, que isso é absolutamente possível. Já ocorreu, não com mulheres narcotraficantes, mas mulheres de outra condição que alcançaram a fama por razões singulares. Foram elevadas a um posto importante e chamaram a atenção.

Essas mulheres que sobem na escala social, como é que isso acontece? Também é por razões duvidosas?

Há mulheres que ascendem por razões de família, por educação, por inteligência, por dinheiro, pelo matrimónio, por muitas razões. Mas também há muitas que ascendem por via marginal. Entre uma mulher que ascende, que é famosa, que sai na Hola, porque se está encostando a um milionário e uma mulher que joga a vida, admiro mais uma mulher esta última que a outra.

Que diferenças existem entra a sociedade do narcotráfico e a sociedade designada como normal?

Existem muitas diferenças. Mas surpreendeu-me uma coisa: no mundo do narco, no mundo da delinquência, no mundo marginal em geral, existe mais respeito pelos códigos internos e pelas normas. Às vezes, um traficante respeita mais estes códigos que uma pessoa presumivelmente honrada respeita os seus. Para mim, essa ética do delinquente, essa moral do traficante, essa dignidade do marginal, encanta-me muito. E o mundo do narcotráfico comprovou isso.

Mas também há muita gente nesse mundo sem qualquer escrúpulo…

Sim, há muitos hijos de puta absolutos, mas também há outros que têm as suas regras e essa gente é muita interessante narrativamente. Não digo que são melhores ou piores, apenas mais interessantes.

Pensa que estas pessoas depois se podem tornar homens respeitáveis?

Às vezes acontece. Não é normal. Conheci no México narcotraficantes que agora são homens respeitáveis, são até governadores.

Que romance gostou mais de escrever?

Não sei. Todo o escritor coerente escreve sempre o mesmo romance, sempre o mesmo livro. O que acontece é que escreve o mesmo livro em alturas diferentes da sua vida. O coração muda, a cabeça muda, a memória muda. Eu não sou a mesma pessoa que quando tinha 35 anos, mas ainda estou obcecado com as mesmas ideias: a dignidade no fracasso, esse género de coisas. Cada vez que falo desse tema, falo de maneira diferente, cada romance é distinto. Digamos que é como uma grande casa: é o mesmo território narrativo, mas cada romance é um compartimento diferente; um romance é para dormir, outro para ver televisão; são distintos, mas todos são a mesma casa. Esse é o meu território narrativo.

Como é sente na pele do escritor mais respeitado actualmente em Espanha?

Sinto-me bem. Não sou um académico da língua. Mas isso não afecta o fundamental: navego no meu veleiro, tenho a mesma vida, ando com os mesmos amigos, leio.

As pessoas exigem-lhe mais?

Antes também me liam. Sou escritor há treze anos, vendo mais de 300 mil exemplares por romance em Espanha. Isso não muda nada.

As pessoas que não lêem os seus livros, mas que conhecem o nome do escritor, a fama, estão sempre à espera de alguma falha para o atacarem?

Não sou muito atacado. Toda a gente tem alguma possibilidade de escândalo, toda a gente está em cima a ver se podem encontrar alguma coisa, mas eu vivo muito à margem. Não levo uma vida literária, não vou a conferências com o tema A Narrativa no Próximo Milénio ou a jornadas literárias. A mim isso passa-me ao lado. Às vezes salpicam-me, mas nada mais.

Publicado por nsousa em outubro 27, 2003 11:33 PM
Comentários

Muito obrigada pelo prazer que me proporcionou a leitura da entrevista a Pérez-Reverte. Gostei muito! (E gosto muito do escritor.)

Truta Vermelha

Afixado por: Truta Vermelha em outubro 31, 2003 11:31 AM